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Na conferência de abertura, Nuno Brandão Costa partiu de uma ideia simples, todos os edifícios têm fachadas, e a melhor é sempre a mais adequada à circunstância do projeto, para percorrer três questões universais da arquitetura, tradição, classicismo e vanguarda, através de três das suas obras no Porto e de um fio que as liga desde o Seagram de Mies.
Fundador do atelier Brandão Costa Arquitectos, sublinhou que a fachada deve responder sempre à circunstância do projeto, ao seu programa e à sua localização. Num país de clima ameno mas de grandes amplitudes térmicas, humidade elevada e forte incidência solar, a proteção térmica e solar da fachada é hoje decisiva para o conforto, para o desempenho passivo e, portanto, para a sustentabilidade do edifício.
Escolheu três obras recentes para tratar três questões universais da história da arquitetura, tradição, classicismo e vanguarda, que, argumentou, aparentemente opostas, se conjugam na obra dos grandes arquitetos. Começou pela imagem do Seagram Building de Mies van der Rohe (Nova Iorque, 1958): o paradigma da fachada-cortina que define a forma do edifício e cria uma imagem urbana de uma certa universalidade, o «international style», com a sua cortina em extrusão de bronze a simular uma estrutura e a proteger do fogo a estrutura metálica, num equilíbrio raro entre leveza e o peso do material. Da galeria dos Uffizi, em Florença, trouxe a talha dourada das molduras como ideia de neutralidade, e o seu eco contemporâneo em Peter Märkli, no Novartis Campus de Basileia (2006).
Tradição foi o Bairro de São João de Deus, no Porto, e um processo quase inverso ao habitual: fechar janelas. Como havia menos compartimentos, muitos vãos foram encerrados (as manchas a vermelho no levantamento), instalaram-se janelas novas de melhor qualidade e envolveu-se o edifício num forte envelope térmico exterior de 12 cm que se estende à cobertura. Como a estrutura de madeira do telhado tinha capacidade incerta, a engenharia impôs materiais leves, uma sanduíche de espuma em vez de cerâmicas ou telhas, e o mesmo material de cobertura desceu pelas empenas para resolver a drenagem, criando uma imagem inesperada.
A racionalidade económica deu a ideia mais interessante: mais de 700 vãos rigorosamente iguais, com o mesmo caixilho de madeira pré-fabricado, oscilobatente, variando apenas entre porta e janela. Com materiais convencionais, sistemas de drenagem elementares e uma janela tipificada de fábrica, o processo gerou, ainda assim, uma diversidade de fachadas e uma imagem de cidade quase pictórica, e, no interior, aqueles vãos aparentemente pequenos bastam para uma iluminação generosa.
Classicismo foi o Terminal Intermodal de Campanhã (TIC), no Porto, uma intervenção de cerca de 50 000 m² onde a fachada coincide com a estrutura, na tradição greco-romana em que não há plano intermédio entre uma e outra. Uma infraestrutura linear norte-sul, desenhada entre um alinhamento e a linha férrea, é realizada através de um pórtico, o mesmo pórtico que já estava no Seagram, cujos pilares se traduzem numa fachada linear e repetitiva, criando um espaço em galeria sobre vãos de 40 a 50 metros; é a rigidez e a geometria fixa da estrutura que dão a imagem final do edifício, com uma banda superior a integrar as infraestruturas. O mesmo pensamento levou-o à proposta para a estação de alta velocidade de Campanhã, dividida em três elementos com três referências históricas distintas, uma torre com fachada-cortina em granito, um «tambor» com fachada digital e um grande pavilhão metálico com painéis fotovoltaicos e clarabóias, três tectónicas muito diferentes a compor uma só imagem.
Vanguarda foi o Edifício Polivalente FLUP 2 I&D, da Universidade do Porto, em construção, a ideia de um envelope-cortina com uma certa autonomia face à estrutura, que remete de novo para o Seagram. Num paralelepípedo de 45 por 15 metros, encaixado num campus, uma estrutura muito rígida (pórtico de 3 metros, pilares de 30 por 30, caixas de escadas fixas) liberta as plantas para um auditório, uma cantina, uma zona de exposições e áreas de investigação, enquanto uma fachada horizontal autónoma, acabada a ETICS, com estore integrado, uniformiza a iluminação e, ao mesmo tempo, recua e avança para se adaptar a cada função. Retirada a fachada, aparece a estrutura, tal e qual foi construída. Convocando um edifício de Mies de 1922, Brandão Costa fechava o argumento onde o tinha aberto: a fachada certa é a que responde à circunstância, e as três questões, no fim, tocam-se.