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Guido Petinelli mostra por que edifícios de alto desempenho não deveriam convergir para uma única linguagem visual, usando Sicredi Dexis, Hospital Erastinho e Galeria Laguna para demonstrar como projeto passivo, metas mensuráveis e desempenho em operação podem produzir envoltórias radicalmente diferentes.
Guido Petinelli separa desempenho de aparência. Certificações e metas ambientais podem orientar o processo, mas não deveriam produzir edifícios visualmente iguais nem funcionar como substituto da medição em operação. Os casos apresentados por Petinelli têm programas, materiais e fachadas muito diferentes, mas usam a mesma pergunta: qual combinação de envelope, sistemas e estratégias passivas reduz consumo sem comprometer conforto e uso? Sicredi Dexis, Hospital Erastinho e Galeria Laguna mostram que uma fachada de alto desempenho pode ser transparente, sombreada, colorida ou translúcida. O denominador comum está menos na linguagem formal e mais na capacidade de medir energia, água, climatização, qualidade ambiental e desempenho real depois que o edifício entra em funcionamento.
Sicredi Dexis: reduzir a demanda antes do equipamento
Em Maringá, o Sicredi Dexis combina sombreamento, vegetação, geração fotovoltaica e um grande átrio central. Petinelli destacou que esse átrio não utiliza ar-condicionado ou ventilação mecânica convencional. Uma queda d'água participa do resfriamento evaporativo e trabalha com a ventilação natural para melhorar o conforto no espaço central. A estratégia reduziu a capacidade de climatização necessária e, segundo Petinelli, retirou mais de R$1 milhão do custo de instalação de ar-condicionado. O edifício reúne certificações LEED Platinum, Zero Energy, Zero Carbon e WELL Platinum, mas Petinelli usa o caso principalmente para mostrar que o resultado depende de reduzir cargas e integrar arquitetura e sistemas antes de dimensionar equipamentos maiores.
A cobertura evidencia essa integração. Fotovoltaicos, áreas verdes e soluções de sombreamento fazem parte de uma mesma estratégia operacional. O desempenho também é conectado ao uso cotidiano, incluindo espaços de trabalho e estrutura de apoio às pessoas, como a creche da empresa. Para Petinelli, eficiência não é um pacote técnico separado da experiência. A arquitetura precisa produzir condições em que menos energia seja necessária para entregar conforto. Isso permite que a certificação seja consequência de decisões coerentes e não o objetivo isolado do projeto. A cobertura, portanto, participa diretamente da redução das cargas ambientais do edifício e não funciona como um elemento técnico separado.
Hospital Erastinho: eficiência em um programa crítico
O Hospital Erastinho, em Curitiba, introduz outra escala de responsabilidade. Petinelli descreveu um hospital pediátrico de oncologia com aproximadamente 5.000 m², construído por R$30 milhões, com cerca de 80% dos atendimentos realizados pelo SUS. O projeto recebeu R$3 milhões por meio de um programa de eficiência ligado à ANEEL e instalou quase 1 MW de geração fotovoltaica, segundo Petinelli. O hospital recebeu LEED Gold, Zero Energy, Zero Carbon e WELL Gold, mas essas metas convivem com requisitos clínicos, controle de infecção, conforto infantil e operação contínua. Como climatização e ventilação funcionam por longos períodos, pequenas reduções de carga podem ter grande efeito. A envoltória participa disso ao controlar ganhos, luz e trocas com o exterior sem comprometer privacidade, manutenção ou o ambiente terapêutico.
Galeria Laguna: uma pele translúcida e outra equação
Na Galeria Laguna, também em Curitiba, a resposta arquitetônica muda completamente. O edifício tem menos de 2.000 m² e usa uma envoltória translúcida de policarbonato. Petinelli descreve o desafio de equilibrar desempenho térmico, acústico e luz natural numa pele que funciona ao mesmo tempo como imagem e filtro. O edifício opera com 100% de água de chuva, sem ligação convencional de água potável municipal, segundo ele. A água captada é tratada, filtrada, desinfetada e remineralizada para uso. A estratégia mostra como uma meta de desempenho pode reorganizar infraestrutura tão profundamente quanto reorganiza a fachada.
A Galeria Laguna reúne LEED ID+C Platinum, O+M Platinum, Zero Energy, Zero Carbon, Zero Waste, Zero Water e WELL Platinum + Performance Rating. Sua fachada, porém, não se parece com as dos outros dois casos. À noite, a pele translúcida se torna luminosa; durante o dia, funciona como filtro. Para Petinelli, essa diferença é justamente o ponto. Alto desempenho não é uma estética. É um processo que começa com metas mensuráveis, testa simulações, reduz demanda, acompanha a operação e permite que cada edifício desenvolva a expressão adequada ao seu contexto.