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Mariana Simas, Rafael Lazzarini, Claudia Araujo e Marcella Carone percorrem a segunda pele do cobogó e do sombreamento passivo à durabilidade costeira e ao projeto paramétrico, mostrando como fachadas porosas reconectam identidade arquitetônica a desempenho mensurável de luz, conforto e energia.
Mariana Simas começa pela longa história de filtros entre interior e exterior. O princípio antecede o cobogó brasileiro e aparece em elementos como o muxarabi, levado por rotas culturais que passaram pela Península Ibérica antes de ganhar interpretações locais. No Brasil, o cobogó deixou de ser apenas uma solução de ventilação e sombreamento e se tornou parte da identidade do modernismo. Simas observa que a segunda pele permite trabalhar profundidade, sombra, textura, privacidade e ventilação sem fechar completamente a relação com o exterior. Em projetos contemporâneos do Studio MK27, essa lógica reaparece em concreto pré-moldado tridimensional, macramê, peças de eucalipto e outros filtros. A forma muda, mas permanece a ideia de uma membrana porosa capaz de mediar clima, arquitetura e experiência.
O desempenho por trás da sombra
Rafael Lazzarini leva essa lógica para uma comparação quantitativa. A popularização do ar-condicionado e da fachada de vidro reduziu o uso de estratégias passivas durante parte do século XX, mas custo de energia, carbono e conforto recolocam o sombreamento no centro do projeto. Num estudo comparativo, Lazzarini analisou vidro transparente, vidro de controle solar e uma solução transparente protegida por sombreamento externo. O critério de luz natural considerou 300 lux em pelo menos 50% da área, enquanto o risco de ofuscamento foi associado a níveis acima de 1.000 lux por mais de 250 horas ocupadas. A intenção foi avaliar energia, conforto térmico e qualidade de luz simultaneamente, evitando uma solução eficiente no consumo que produzisse um ambiente visualmente desconfortável.
A aproximadamente 2,5 m da fachada, a solução sombreada apresentou temperatura operativa cerca de 3°C menor que o cenário com vidro transparente, segundo Lazzarini. Sem proteção efetiva, quase 15% do tempo analisado permaneceu em condição desconfortável, enquanto as alternativas com vidro de controle solar ou sombreamento superaram 95% de conforto. A redução anual de consumo de ar-condicionado ficou entre 12% e 15%. O estudo também indicou uma redução de 40 TR na capacidade instalada; usando o valor de R$10.000 por TR apresentado por Lazzarini, isso representaria aproximadamente R$400.000 de investimento evitado. O filtro deixa, assim, de ser um recurso ornamental e passa a integrar uma estratégia de energia, conforto, dimensionamento de equipamentos e custo de construção.
Clima marítimo e fachada em movimento
Claudia Araujo mostra como o mesmo princípio precisa ser reinterpretado no litoral. No Cais, em Jurerê, Florianópolis, hotelaria, comércio e residências compartilham um conjunto junto ao mar com 59 unidades distintas e sem pavimento típico. O térreo procura manter permeabilidade pública, enquanto brises e outras camadas externas respondem ao sol e criam movimento na fachada. A condição marítima acrescenta vento, chuva e salinidade à discussão de durabilidade, exigindo que fixações, acabamentos, acesso e manutenção sustentem a aparência ao longo da vida útil. Araujo também amplia a ideia de envoltória para fachadas internas, pátios, circulações e espaços comuns. LEED e Fitwel entram como referências dentro de uma estratégia mais ampla de conforto, proteção e experiência, não como substitutos do projeto climático.
Do cobogó ao algoritmo
Marcella Carone desloca o tema para ferramentas generativas e paramétricas. Desde 2022, modelos de difusão tornaram a geração de imagens mais acessível, mas ela chama atenção para a falta de referências brasileiras nos conjuntos de treinamento. Usar inteligência artificial sem controle pode produzir uma imagem de cobogó que parece plausível, mas não corresponde a uma geometria construível ou a um desempenho conhecido. Carone combina referências visuais com Rhino e Grasshopper, controlando percentuais de abertura na frente e no verso da peça e ligando a forma a dados ambientais. Num estudo de uma sala voltada ao norte em São Paulo, um cobogó com 35% de abertura foi testado diretamente contra condições solares e de luz natural, permitindo alterar a geometria enquanto os resultados ainda podiam influenciar o desenho.
Os resultados mostraram redução de três vezes na exposição direta ao sol e diminuição de duas a três vezes na radiação anual, conforme Carone. No centro da sala, a iluminância caiu de aproximadamente 500 lux sem o filtro para cerca de 250 a 300 lux com o cobogó. A vantagem do processo está em devolver esses dados ao desenho enquanto a geometria ainda está sendo criada, em vez de testar uma forma fechada no fim. A tradição, nesse sentido, não é tratada como objeto a copiar. O cobogó volta a ser relevante porque seu princípio pode ser parametrizado, medido e adaptado a novas tecnologias de fabricação. Entre memória, clima, construção e simulação, a segunda pele reaparece como ferramenta ativa de projeto e não como nostalgia formal. Essa atualização preserva a função climática original em condições contemporâneas de projeto e mantém o desempenho como critério verificável da forma.