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Igor Alvim mostra como a consultoria de fachadas conecta intenção arquitetônica, normas, fabricação, ensaios e instalação, usando Torre Mata Atlântica, Petrobras Santos e MASP para demonstrar como envoltórias complexas podem ser racionalizadas sem perder desempenho, transparência ou caráter arquitetônico.
Igor Alvim descreve a consultoria de fachadas como um exercício de tradução. O cliente expressa uma intenção, a arquitetura define uma imagem e o consultor precisa transformar esse conjunto em uma solução que responda a normas, desempenho, fabricação, custo e manutenção. Essa responsabilidade ganhou peso à medida que as envoltórias passaram a incorporar requisitos térmicos, acústicos e de eficiência energética além de estanqueidade e resistência ao vento. A QMD, fundada em 1988, acumulou 35 anos de atuação e cerca de 2.600 projetos segundo Alvim. A experiência, porém, só tem valor quando é convertida em decisões repetíveis, documentação clara, validação e acompanhamento daquilo que realmente chega à obra.
Industrializar uma fachada irregular
A Torre Mata Atlântica evidencia esse processo. A arquitetura combina vegetação e uma grande variedade de brises que mudam de orientação, inclinação e dimensão ao longo das fachadas. A primeira tarefa foi mapear essa diversidade. Cada cor do estudo correspondia a uma tipologia, permitindo entender onde havia repetição e onde a diferença era inevitável. O objetivo técnico foi preservar a estética e, ao mesmo tempo, criar industrialização e facilidade de instalação. Em vez de montar peça por peça no edifício, a equipe desenvolveu módulos independentes de brises, capazes de absorver tolerâncias da estrutura de concreto e ajustes de campo sem transferir o problema de um painel para o seguinte.
Os detalhes seguiram a mesma lógica. Perfis especiais foram desenhados para diferentes ângulos e os parafusos ficaram escondidos sob tampas, reduzindo o ruído visual da fixação. A orientação de alguns brises também foi ajustada para aumentar a proteção solar e compatibilizar a fachada com a vegetação que sobe pela envoltória. O desenho final não resulta, portanto, de uma simplificação estética, mas de uma racionalização das diferenças. A industrialização só funcionou porque a equipe primeiro entendeu a geometria, os limites de fabricação e a sequência de montagem. O sistema unitizado deixou de ser uma solução genérica e passou a ser uma ferramenta para tornar a complexidade controlável.
Transparência com menor carga solar
Na sede da Petrobras em Santos, a equação mudou. O edifício recebe sol em praticamente todas as fachadas e tinha uma meta clara de eficiência energética. A solução combinou brises externos, serigrafia e um segundo plano envidraçado para reduzir gradualmente a radiação sem criar uma pele excessivamente reflexiva. Alvim comparou a estratégia a dividir a função de controle solar entre duas camadas, preservando maior transparência para quem está dentro e uma leitura mais leve para quem observa o edifício. Os brises foram unitizados para evitar montagem posterior pelo lado externo, e algumas fachadas receberam serigrafia adicional no vidro para responder aos momentos em que o sol fica mais baixo no horizonte.
O sistema foi submetido a ensaio dinâmico na Flórida, usando procedimento americano com as cargas brasileiras, conforme Alvim esclareceu. A preocupação era verificar o comportamento dos brises sob ação variável do vento, não apenas sob pressão estática. No grande átrio, uma clarabóia usa diferentes densidades de serigrafia e ventilação contínua para controlar o ganho térmico sem recorrer ao condicionamento de toda a área. A racionalização chegou até a fabricação dos vidros: as peças foram mantidas na mesma dimensão e as juntas variam de 10 mm a 20 mm, resultado de um estudo matemático que tornou executável uma geometria difícil de medir individualmente.
O consultor como integrador
No MASP, a mesma mentalidade aparece numa condição distinta. A nova envoltória precisou conciliar industrialização, modulação, áreas opacas e requisitos de luz relacionados ao acervo. Alvim usa esse conjunto de casos para defender uma atuação que acompanha o edifício do diagnóstico à validação e depois retorna à experiência construída. Desempenho térmico, acústica, estanqueidade, manutenção, design, vento e custo precisam entrar no mesmo quadro de decisão. A vantagem não é apenas evitar falhas. Uma consultoria capaz de entender o que o cliente precisa, dominar técnica e normas e coordenar fabricação reduz prazo, incerteza e retrabalho. A fachada deixa de ser um conjunto de componentes e passa a ser um sistema cuja intenção arquitetônica permanece legível porque sua engenharia foi resolvida antes da instalação.