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Num painel moderado por Liliana Soares, cinco especialistas discutiram como transformar o edificado existente. O consenso: reabilitar em vez de demolir, porque 85% dos edifícios de hoje ainda existirão em 2050; uma conversa que se desloca do carbono operacional para o incorporado; e um mercado que já faz da sustentabilidade a norma.
À mesa, Cláudia Sousa Monteiro (sustentabilidade, JLL), André Caiado (Contacto Atlântico), Marcus Cerdeira (Fragmentos) e Rodrigo Félix (GreenLab), com Liliana Soares, da CBRE, a substituir à última hora o moderador previsto. O tema: transformar edifícios, entre o desempenho e o pragmatismo.
O ponto de partida foi o porquê da reabilitação. Cerca de 85% dos edifícios que existem hoje ainda estarão de pé em 2050, pelo que, sem intervir no existente, não se chega às metas de descarbonização. E demolir, sublinhou Rodrigo Félix, liberta o carbono já incorporado no que está construído, além de agravar a crise habitacional; a solução é intervir de forma estratégica, guiada por uma análise de ciclo de vida prévia ao projeto, de que o Oriente Green Campus, discutido nessa tarde, foi apontado como bom exemplo. Do lado do projetista, Marcus Cerdeira resumiu a palavra-chave: equilíbrio, entre potenciar ao máximo o edifício, a expectativa económica do cliente e um enquadramento legislativo que não é fácil.
A conversa deslocou-se depois do carbono operacional para o incorporado. Cláudia Sousa Monteiro explicou que a estratégia portuguesa aponta a um parque descarbonizado em 2050, mas do ponto de vista operacional, e que, dado o mix energético e a trajetória de eletrificação, o carbono operacional deixa de ser, para Portugal, o grande problema. À medida que ele se aproxima de zero, ganha peso o carbono incorporado, que a revisão da diretiva de desempenho energético dos edifícios, a transpor este ano, vai começar a integrar, com indicadores como o Global Warming Potential a entrarem no certificado energético (já familiares de certificações voluntárias como o BREEAM ou o LEED) e a caminho de se tornarem requisitos mínimos obrigatórios.
A regulação, concordaram, é necessária mas insuficiente por si só. Recordou-se um período em que uma redução de impostos por subir dois níveis a classe energética gerou os melhores anos da reabilitação, até um Governo lhe pôr fim, por perder receita fiscal. A conclusão: o Estado tem de legislar, mas também de criar instrumentos financeiros que alavanquem a transformação, sobretudo em Portugal.
O verdadeiro motor, porém, é hoje o mercado. Os investidores institucionais têm as suas próprias métricas e já não financiam projetos sem um mínimo de desempenho de sustentabilidade, ou sem um plano credível, cujo cumprimento são obrigados a demonstrar. O inquérito anual da CBRE a investidores e financiadores mostra, aliás, que o «prémio verde» tem vindo a encolher: não porque o tema perca importância, mas porque passou a ser a norma, surgindo, em contrapartida, um «desconto castanho» para os edifícios que não cumprem qualquer métrica, que saem da corrida ou veem o preço descer. Quem cumpre, acede a dinheiro mais barato. O exemplo dado foi o dos painéis solares: de gadget para clientes sofisticados a quase obrigação, porque se pagam em cerca de seis anos, não os propor é prestar um mau serviço.
Por fim, o que torna um edifício verdadeiramente eficiente. Rodrigo Félix propôs olhá-lo em três níveis: a fachada, a proteção que reduz as cargas de aquecimento e arrefecimento, e o foco de toda a conferência; sistemas bem dimensionados, que exijam menos da rede (como a recuperação de energia do subsolo vista nessa tarde); e, por fim, a independência face à rede elétrica, através das renováveis. A sustentabilidade, lembrou a moderadora, não é só energia, mas, a fechar a manhã, o painel deixou claro que transformar o que já existe é, cada vez mais, a norma, e não a exceção.