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Moderado por João Simões, o painel contou como a nova sede da Liga Portugal, no Porto, passou do conceito à obra. Da ideia da OODA, «só é preciso uma bola e um campo verde», a uma pele hexagonal inspirada na superfície de uma bola, engenhada pela b-face contra o vento e o fogo e produzida pela OTIIMA e pela Artworks num processo de moldação tão exigente que os três conjuntos de moldes previstos se tornaram mais de vinte.
À mesa estavam João Jesus (OODA), Pedro Rodrigues (b-face), Pedro Pinhal e Jorge Gonçalves (Casais), arquitetura, engenharia de fachada, sistema e construção da nova sede da Liga Portuguesa de Futebol Profissional, no Porto.
João Jesus explicou o conceito. O edifício, com cerca de 13 200 m², situa-se numa zona fragmentada do Porto, em Ramalde, entre o casco antigo, o parque industrial e uma nova zona residencial, e devia ser um projeto-âncora, emblemático da identidade da Liga e capaz de envolver a comunidade. A referência foi uma frase de Bill Shankly, treinador e jogador do Liverpool: só é preciso uma bola e um campo verde. A arquitetura seria mais forte se fosse simples, só que o campo acabou ondulado e a bola virou um cubo: um embasamento horizontal sob uma cobertura verde, que se estende à paisagem e ao parque ribeirinho, e um volume vertical, o cubo envidraçado dos escritórios, envolvido por uma pele hexagonal branca que evoca a superfície de uma bola.
O programa desdobra-se em dois: um edifício horizontal, público e aberto à comunidade, e o volume vertical, privado, com os escritórios, a formação e a investigação da Liga. À entrada, uma praça distribui o programa público e é «contaminada» pela Ribeira da Granja, que ali aflora pela primeira vez à superfície, trazendo o parque verde para dentro do conjunto; a cobertura é toda percorrível, uma espécie de ilha ajardinada no Porto. Na pele, o hexágono não é gratuito: está na costura da bola de futebol clássica e nas redes das balizas, e desdobra-se de uma face para a outra criando sombreamento e ajudando a mitigar a ilha de calor.
Pedro Rodrigues descreveu a engenharia. Tratando-se de elementos muito expostos, sobretudo à ação dinâmica do vento, a b-face analisou vários ângulos de incidência e caracterizou os materiais, a profundidade, a espessura e o conceito estrutural dos painéis, sempre com a máxima proteção à classe de fogo, uma preocupação central num edifício tão exposto. E, como notou João Jesus, muitos detalhes invisíveis, portas e mecanismos para evacuação e para o acesso da proteção civil, resultaram da competência técnica da b-face, que pegou no projeto com a obra já a decorrer e materializou todas as intenções.
A pele hexagonal é feita de fibra compósita, um material pouco habitual em fachadas. A b-face, que já trabalhara com a OTIIMA em perfis pultrudidos noutros projetos, descreveu a dificuldade de «cozinhar» o compósito para equilibrar a rigidez e a capacidade de moldagem em peças tão grandes e profundas, e de resolver as ligações, já que a fibra e o metal não se dão bem quimicamente. Foram precisos muitos ensaios e provetes para caracterizar o material e as cargas antes de o projeto se tornar realidade.
Mas o maior desafio foi fabricar a peça. Pedro Pinhal contou como uma solução única, de geometria complexa, obrigou a estudar moldes e contramoldes e a formulação da mistura: um contramolde exterior para dar rigidez, um molde interior em silicone que recebe a resina de fibra injetada, cerca de 12 horas de repouso, uma rotação de 180° para desmoldar, cura em estufa e, por fim, lixagem e acabamento. O processo foi tão sensível, o catalisador, a temperatura ambiente, até um portão aberto na fábrica afetava a cura, que os três conjuntos de moldes inicialmente previstos se transformaram em mais de vinte: peças subcuradas saíam deformáveis, peças sobrecuradas fissuravam, e ambas danificavam os moldes. A OTIIMA e a Artworks chegaram a trabalhar 24 horas por dia para cumprir prazos.
A instalação, essa, foi a parte mais simples: as peças eram transportadas em cavalete, elevadas pela própria geometria e fixadas com soluções rápidas e ajustáveis, com uma união que garantia o alinhamento vertical e uma junta de 10 mm na horizontal para dar folga. E o painel foi unânime sobre a receita do sucesso: a coordenação entre muitas equipas com visões e formações diferentes e, na expressão da Casais que Jorge Gonçalves fez sua, «simplificar com propósito», resolver primeiro em projeto, com processos industrializados, para que a fase física corra mais célere e mais próxima da realidade.