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Published in the language of the original session. The English translation is provided for reference and may not be fully accurate, please verify technical terms against the source.

Ivo Henriques e Luís Gamboa contaram os 27 anos do PRATA Riverside Village, a regeneração de um terreno industrial contaminado, em Marvila, num novo bairro virado ao Tejo. E, no centro da história, uma fachada cerâmica extremamente complexa que reinterpreta os reflexos do azulejo de Lisboa e que só o BIM tornou possível.

Vista aérea do PRATA Riverside Village junto ao rio
PRATA Riverside Village. Um bairro novo virado ao Tejo, onde antes havia uma frente industrial fechada ao rio, 27 anos de regeneração.

O tema era o de sempre nesta zona, entre o centro de Lisboa e o Parque das Nações: o passado industrial e o futuro urbano, e a relação da cidade com o rio e a sua memória. Do lado do promotor, a VIC Properties conta já mais de 10 000 fogos entregues.

Fotografia histórica da zona industrial do Braço de Prata
O passado industrial. A antiga fábrica de armamento do Braço de Prata (INDEP) e uma frente ribeirinha usada como carreira de tiro, hoje transformadas.

O ponto de partida foi a antiga fábrica de armamento militar do Braço de Prata, a INDEP: armazéns sem qualquer relação com o rio, uma frente ribeirinha usada como carreira de tiro e uma grande barreira entre a zona industrial e o Tejo, num território altamente poluído que, com o desaparecimento da indústria, ficou ao abandono. Citando Renzo Piano, «o lugar do projeto tem sempre uma história para nos contar», a ideia foi regenerar essa zona perdida e criar um bairro novo, com um gesto inicial decisivo: passar todas as vias rodoviárias para trás, a poente, libertando a frente para os espaços verdes e para o rio.

Pormenor da fachada de bandejas cerâmicas
Uma fachada viva. As bandejas cerâmicas de 122 por 20 cm, numa modulação rigorosa que se transforma ao longo do dia e das estações.

Não foi rápido. O projeto tem praticamente 27 anos, começou em 1999, com o primeiro loteamento aprovado em 2010 e o primeiro edifício iniciado em 2016, e chegou a 2026 ainda com o último loteamento aprovado «com grande dificuldade». O conceito arquitetónico, porém, nunca mudou: as sucessivas alterações, de 499 para cerca de 830 apartamentos, em 12 lotes e cerca de 130 000 m², à volta de uma praça central e de praças perimetrais, serviram sobretudo para acompanhar o mercado. Dos 12 edifícios, sete estão construídos e cinco em construção.

A fachada, disseram, ajuda a criar a identidade do bairro. Em Lisboa, o azulejo é um material omnipresente, mas a proposta não foi copiá-lo, e sim reinterpretar os seus reflexos, brilhos e reflexões. Daí uma modulação muito rigorosa, com imensos ensaios: uma malha de 3,75 e 7,5 metros, em que cada 3,75 metros acolhe três bandejas cerâmicas de 122 por 20 cm, com cada mosaico cerâmico colado a uma bandeja. A fachada, insistiram, é um elemento vivo, que se transforma ao longo do dia e das estações.

Estudos da fachada cerâmica e de padrões de azulejo
Reinterpretar o azulejo. Não copiar o azulejo de Lisboa, mas os seus reflexos e brilhos, uma modulação afinada com imensos ensaios.

É também extremamente complexa. Obrigou a casar betão, aço, alumínio, cerâmica, vidro e capoto sobre uma estrutura metálica principal e uma estrutura de alumínio que suporta as bandejas cerâmicas, e a fachada comporta-se de forma diferente nas zonas verticais, curvas e inclinadas (nas inclinadas, por exemplo, os espaçamentos entre peças são calculados para escoar a água para uma caleira). O que a tornou construível foi o BIM: modelar tudo, admitiu o cliente, transformou aquilo que era «um bicho de sete cabeças» na empreitada mais fácil da obra, milimétricamente estudada, com duas ou três pessoas a executar a fachada de um edifício.

Terraço com brise-soleil e vista sobre o rio
Virado ao rio. Brise-soleil, muros de grande inércia e jardins de inverno, medidas passivas que acompanham a relação com o Tejo.

Com poucos materiais, capoto, lioz, elementos metálicos em dois tons de cinzento (RAL 7040 e 7035) e telas de sombreamento, o projeto junta medidas ativas e passivas: dos tubos solares iniciais evoluiu-se para painéis fotovoltaicos, e a estratégia passiva inclui circulação de ar nos apartamentos, brise-soleil, muros de grande inércia e jardins de inverno. Os ensaios à escala real das bandejas serviram para otimizar a fachada, económica e esteticamente, do primeiro ao último lote. A nota final de Gamboa resumiu os 27 anos: um território abandonado, poluído e não visitado é hoje uma comunidade dinâmica virada ao rio, e, dentro de três anos, também um polo de escritórios.

Synthesis based on the presentation by Ivo Henriques and Luís Gamboa at Zak World of Façades Lisbon, 18 June 2026. Watch the full recording via the link above.