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Jorge Moreira traçou o percurso que uma fachada faz da intenção abstrata do arquiteto, ritmo, profundidade, luz e sombra, a um sistema coordenado, fabricável e construível, através de um projeto cujas palas curvas em cerâmica e sombreamento irregular a duas tonalidades exigiram apoios feitos à medida, fixações ocultas e reforço estrutural específico.
Moreira, engenheiro estrutural na Skinde, começou pela distância de que trata a palestra: uma fachada lê-se primeiro como estética, ritmo, profundidade, reflexos, luz, sombra, intenção arquitetónica, mas por trás dessa imagem existe um percurso exigente, o de transformar uma ideia conceptual num sistema construtivo real, coordenado, fabricável, instalável e durável. A Skinde, disse, é o veículo dessa tradução: uma equipa multidisciplinar que vai do desenvolvimento e do projeto aos desenhos de fabrico e de montagem e à modelação 3D.
Enquadrou-a no longo arco da evolução das fachadas. Até ao século XIX, as geometrias eram regulares e simétricas, condicionadas por materiais tradicionais e processos artesanais; o modernismo e a revolução industrial trouxeram o aço, o betão e o vidro, e fachadas mais leves e racionais; mas a verdadeira mudança veio com a digitalização, a partir dos anos 90, o CAD e a modelação 3D, que permitiram projetar e construir superfícies complexas com rigor. Hoje, defendeu, as fachadas não são só geometricamente complexas, mas inteligentes e sustentáveis, respondendo ao clima, à energia e à eficiência construtiva, três ideias numa só: mais liberdade geométrica, mais tecnologia, maior desempenho.
O centro da palestra foram os desafios de um projeto. Duas palas curvas, em forma de U e de L, foram revestidas com telha cerâmica de 890 por 890 milímetros sobre um raio de curvatura variável, com fixações ocultas, e a exigência de que qualquer telha fosse removível individualmente em caso de quebra. A resposta da Skinde foi um sistema de apoio individual regulável: cada telha fixada apenas com dois parafusos, com ajuste fino em vários eixos e independência estrutural em relação às vizinhas.
A maior complexidade arquitetónica concentrou-se na zona do «X», uma convergência de inclinações, mudanças de plano e interseções geométricas que exigiu um nível intenso de detalhe técnico e coordenação, tornando-a a zona-chave do projeto.
O outro desafio era o sombreamento. Os elementos verticais de sombreamento tinham uma geometria complexa e irregular, que só se foi tornando mais exigente à medida que o projeto evoluía, e duas tonalidades diferentes, pelo que se desenvolveu um sistema de fixação mecânico oculto, sobretudo nas juntas, para manter a fachada visualmente contínua. Do ponto de vista estrutural, a geometria não convencional foi significativa: as formas irregulares aumentaram as exigências de estabilidade, apoio e transferência de cargas, obrigando a soluções de reforço específicas para manter o conjunto estável.
E a sequência de montagem revelou-se tão decisiva como o projeto, a complexidade geométrica e a sobreposição dos elementos exigiram um planeamento rigoroso da instalação, para garantir não só a viabilidade construtiva, mas também a leitura estética correta do conjunto. Por trás de uma fachada que se lê, no fim, como pura intenção arquitetónica, o argumento de Moreira era o de que existe uma disciplina exigente e invisível a torná-la real.